Vivemos num país onde a democracia é celebrada como expressão máxima da liberdade, mas o cidadão é obrigado a comparecer às urnas para exercê-la. Curiosa liberdade essa que exige comprovante.

A cada eleição, o espetáculo se repete. A imprensa, os partidos e as estruturas de poder ajudam a transformar determinados candidatos nos protagonistas de uma disputa apresentada como inevitável. De um lado, um salvador da pátria. Do outro, outro salvador, igualmente indispensável para seus seguidores. Entre ambos, milhões de pessoas pressionadas a escolher o famoso “menos pior”.

O debate político cede lugar às torcidas. Questionar um candidato significa, quase automaticamente, apoiar seu adversário. Quem não se identifica com nenhum deles pode receber o rótulo de alienado ou analfabeto político.

Mas desde quando recusar as alternativas apresentadas significa desconhecer a política?

O voto nulo pode expressar uma recusa consciente, embora não anule a eleição nem impeça a escolha dos governantes. E essa limitação revela uma contradição: o sistema permite rejeitar todos os candidatos, mas não oferece, por meio dessa rejeição, a possibilidade de exigir outras alternativas.

Pensadores anarquistas como Bakunin, Malatesta e Emma Goldman questionaram os limites da representação política. Afinal, escolher periodicamente quem exercerá autoridade sobre nós não é necessariamente o mesmo que conquistar autonomia.

Talvez o problema não esteja apenas nos candidatos, mas na crença de que precisamos permanentemente de alguém para nos salvar.

Uma sociedade verdadeiramente livre não deveria viver à espera de messias. Deveria aprender a reconhecer sua própria capacidade de decidir.

Texto elaborado a partir do ensaio “O país dos salvadores: o voto, a farsa da escolha e a democracia como espetáculo”, de Antonio R P Medrado.