NOSSA SENHORA DA BOA MORTE
By dantonmedrado / Julho 29, 2026 / Sem comentários / Proseados
Até então eu só conhecia a santa graças aos poemas de Manuel Bandeira, e jamais a imaginei viva. Bem, entendam que quando eu digo viva me refiro ao fato de que acreditava ser a divindade apenas fruto da imaginação do invejável poeta pernambucano.
Mas, para minha surpresa, dou de cara com a igreja de “Nossa Senhora da Boa Morte” em plena São Paulo, na chegada do Glicério para ser mais exato. Não poderia ser melhor localizada.
De início, quando cheguei ao bairro, sua identificação era difícil, encontrava-se a igreja cercada por tapumes de madeira com grande quantidade de placas de patrocínio. Ela, (a igreja) passava por reformas, e lá constava: Restauração da Igreja de Nossa senhora da Boa Morte.
Li novamente para que não restasse dúvida, e confirmei, era isso mesmo, não é que a porra da santa existia?
Primeiro devo explicar que não tem nada a ver com aparições, peregrinações, romarias nem nada… O que eu disse é que descobri que a dita santa, cantada por Manuel Bandeira, de fato existe na iconografia da Igreja Católica, e mais, tem uma igreja (pelo menos uma) dedicada a seu culto. Explicação dada, voltemos ao inusitado nome ou título da Santa: “Nossa Senhora da Boa Morte’.
Nos dias seguintes passei a olhar com outros olhos para aquela antiga igreja, quase que totalmente recuperada, tentando entender que tipo de morte poderia ser ruim, pois, para mim ela (a morte) sempre fora vista como boa, e aí está a santa que não me deixa mentir.
É incrível como o assunto que nos acompanha desde que nascemos se torna tão incômodo ao passo que vamos crescendo. Talvez porque vamos acumulando coisas ao longo dos anos, e desejando cada vez mais, então, nos pega de surpresa a notícia da morte de alguém. Cai nos a “ficha”, pensamos: Que merda, poderia ter sido eu!
Descabelamos, rezamos, pedimos, imploramos por mais dias, mais vida, mais mais, e quase sempre vivemos pior, sem contar que não conseguimos ainda cercar a dita cuja, a ceifadora sinistra, a danada, a irremediável, a insubstituível, ela, a dona morte.
Certificados de que não há escapatória, surge então o apego final… Tem gente que acha que pode tirar vantagem de tudo, e então, só resta apelar, já que a morte vem irremediavelmente, que seja ela boa.
Mas, será que existe, por ventura, a Nossa Senhora da Má Morte? Afinal, tem gosto pra tudo, e se há uma santa para a boa, porque não uma para a não boa? Enfim…
Boa ou má, a morte tem dado as caras no Glicério, inclusive nos braços de uma santa, talvez até para amenizar um pouco a rigidez do tema e do lugar, repleto de mortos-vivos jogados pelas calçadas.
No fundo eu gostaria que ela, a santa, fosse, e bem que poderia ser, a Nossa Senhora da Boa Miséria, da Ótima Penúria, da Tranquila Pobreza, da Plena Miserabilidade, mas que existisse de verdade.
É que ao redor da igreja amontoam-se dezenas de mendigos e moradores de rua, esfomeados e com frio, dormindo sob cobertores minúsculos, imundos, ou em caixas de papelão oleosas.
Todos os dias cruzo com essa realidade e imagino se essas pessoas não estão ali justamente em busca de uma boa morte, “o descanso”, como dizem alguns.
Poderia uma pessoa vivendo em miséria total apelar por uma boa morte? Oras, por que não? Na verdade eles estão ali como zumbis; mortos social, moral e civilmente. Mortos de espíritos talvez e de sonhos com certeza, o que torna difícil até mesma a tarefa de desejar.
Consideram-se mortos, são vistos como mortos, se é que são vistos, e ali deitam seus corpos doridos diariamente, avessos ao calendário festivo das centrais sindicais e dos dias santos. Uma boa morte seria o auge, o tudo para quem nunca teve nada.
Ali, eles comem restos dos restos que nos servem em restaurantes e bares, e vestem-se com o que resta do resto de nossas roupas. Sorriem com o que restou de dentes, caminham com os restos dos ossos e respiram porque são teimosos.
Valei-me Nossa Senhora da Boa Morte! Não por mim e nem por minha descrença, mas, pela indiferença sofrida por essa gente; que reserve a essas pessoas, no mínimo, uma boa morte boa, já que a vida negou-lhes tudo.