Queimando tudo até a última ponta


QUEIMANDO TUDO ATÉ A ÚLTIMA PONTA

 Para os Iir.´. Cyrano Rezende, Daniel Carvalho e Sílvio Labate.

Eu nem considero fevereiro um mês. Fevereiro pra mim é só um contratempo entre janeiro e março. Tudo bem que para alguns, fevereiro é “O Mês”, ‘tô sabendo, mas como ignoro o carnaval, (pelo menos até hoje) esse período nebuloso parece servir apenas para criar almas bissextas que se não se confundem, confundem os outros no que diz respeito a suas datas natalícias.

Para completar, eis que passei a frequentar com amigos, uma charutaria em Moema, (bairro “burguesão”) onde podemos deliciar saborosos canapés; tomar um café e papear à vontade. Ah, já ia me esquecendo, meus amigos quando lá chegam, insistem em fumar alguns charutos cubanos ou baianos, que seja! E eu, acabo perdido como um mosquito naquela nuvem de fumaça branca e de cheiro duvidoso.

Quer saber? Sim, já me bateu a curiosidade de provar aquele “troço”. Observando os sujeitos que parecem viajar na fumaça, pensei até que pudesse existir algo mais ‘leve’ ali, do que o tabaco, mas, pensando bem, deixa pra lá, me asseguraram que os charutos são de boa qualidade.

Sei lá, de poeta bissexto, “cafeinômano”, a fumar charutos ‘de vez em nunca’, melhor mesmo é deixar como está, fico com o café.

Sentados sob a bandeira cubana, um dos cemitérios da revolução, ao lado de um pôster gigante e inconfundível do Che Guevara, com seu charuto no canto da boca, num bairro burguês, eu paro para analisar meus fevereiros, aqueles que citei no começo do texto, e que não os tenho vivido.

Encontro-me entre dois mundos, universos paralelos que me permitem cruzar fronteiras sem necessitar de passaporte, mas, que mesmo assim me mantêm isolado.

Pensando bem, eu sou como um fevereiro, um contratempo entre o que sou e o que posso, mas, sem muitas vontades, caso contrário não seria eu. Sobrevivo indiferente ao que vivo e isso todos os dias e meses, e bairros também.

Quando estou sob a fumaça dos charutos, e em meio a meus amigos, é como se o mundo parasse por algumas horas para que eu respirasse, claro que poderia ser sem o cheiro dos charutos, mas, convenhamos, estamos em fevereiro, e nada como alguns desenganos para que sejam queimados até a última ponta, e dissolvidos como cinzas…

É, o fogo queima e purifica…