Quando minha filha saiu de casa


Quando minha filha saiu de casa

 

Acreditem vocês, minha filha resolveu sair de casa, e apenas pouco mais de vinte e quatro anos após ter chegado. E assim, sem mais nem menos. Sem me preparar; sem me consultar… Simplesmente decidiu sair e pronto.
Passei uns dois dias me perguntando: – Com que direito ela faz isso?! – E imediatamente risquei o termo ‘direito’ de meu dicionário. O interessante é que eu estava irado comigo mesmo, a tal ponto que seria capaz de me autoflagelar, se não achasse isso ridículo e medieval demais para um sujeito com a minha formação, e também não consegui saber o que alimentava a minha ira, se era o fato da menina ter crescido ou de ser eu o seu pai e ter que conviver com essa realidade.
Quanta ingratidão – pensei comigo – quanta incompreensão para com um pai. Logo comigo… Eu que me dediquei a esta menina desde o seu primeiro dia de ainda não nascida… eu realmente não consigo entender, aceitar então, nem pensar! Posso não ser o melhor pai do mundo, mas podem apostar que sou o melhor pai dela do mundo. Oras, essa menina, quem ela pensa que é?
Minha tristeza maior, não é pelo que eu já fiz e ela não valorizou, não, isso não… o que me corrói de verdade é o que eu planejei fazer e não poderei, como por exemplo: pintar o seu primeiro apartamento; pregar um prego na parede, debaixo de sua revolta que queria um parafuso com bucha; instalar o chuveiro alto demais; regular as portas de seu guarda-roupa ou até mesmo invadir seu apartamento num domingo de manhã, quando ela sequer sabia que eu tinha uma cópia das chaves…
Sabe, essas coisas simples que um pai faz quando quer ficar perto dos filhos? pois bem, eu imagino que não seja pedir muito, aliás, que custaria ela esperar mais alguns anos para sair de casa? não entendo a pressa desses jovens, e se entendesse, não aceitaria da mesma forma.
Ela poderia por exemplo, esperar pelo verão, ou que suas irmãs saíssem do colégio, ou que a igreja elegesse um papa brasileiro, ou que acabasse a miséria da África ou da Índia, sei lá… essas coisas simples. Mas não, ela tinha que ser turrona, bendito nariz empinado! como se já não bastasse herdar o espírito de brigador, não satisfeita, carrega consigo o orgulho que assoberba minha alma… e digo mais, ela que não me venha com esse papo de liberdade, de vida própria e de autonomia… percebam que estou tentando não partir pra ignorância.
Enfim, ela é apenas a minha menina e por isso mesmo não tem o direito (passei a ignorar tal palavra) de deixar a sombra de minha barba, ela é ainda tão menina… Eu a vejo como a pular sobre minha barriga, rolando no sofá ou no carpete, num domingo em que o sol resolve se esconder e o dia é convite para assistir nos sonhos de nossos filhos… É, isso só até minha esposa chegar e me trazer à realidade… Criatura insensível!
Eu estou deveras chateado com todos os filhos que deixam seus pais, que deixam suas casas, e não sei até quando vai durar minha birra… Eu sonho com o dia em que a infância dos filhos dure um século, e que eles, longe ou próximos dos pais, sintam-se amados pelo menos um ínfimo do que verdadeiramente o são. A distância até consegue afastar os filhos de casa, mas nunca, jamais conseguirá afastar os pais dos filhos, mesmo que estes últimos queiram.
Somente aqueles que se tornaram pais sabem exatamente o que é ser filho, pois algumas vezes, enquanto nossos filhos crescem, nós é que ficamos pequenos.

… Aceitaria ela morar na mesma rua?…