O preconceito contra o Café


O preconceito contra o Café

café mulher

Preconceito Religioso

O cristão medieval tinha uma convicção profunda do pecado. Temia de tal forma pecar pois do contrário sofreria uma condenação eterna. E era comum adotar formas de penitência como meio de pagar alguns pecados cometidos. Durante centenas de anos o tipo mais popular de penitência eram as peregrinações aos lugares santificados. Uma viagem a Terra Santa era a ambição dileta de todo o cristão. Centenas de pessoas reuniam-se aos bandos errantes que desfilavam através da Europa Central e se dirigiam para Jerusalém. Mas a partir do ano 1050 os turcos seld’kucidas começaram a avançar para o Ocidente. Vindos da Ásia , dominaram o califado de Bagdá, conquistaram a Síria, a Palestina e o Egito. Destruíram o exército bizantino e capturaram a Nicéia, a algumas milhas de Constantinopla. Foi quando o imperador bizantino Alexius tentou a reconquista de suas possessões perdidas. E enviou um apêlo ao Papa Urbano II pedindo auxílio para recrutar soldados mercenários. Aproveitando-se da oportunidade o Papa convocou um concílio em Clermont e exortou os cristãos a guerrear essa amaldiçoada raça dos turcos. O apêlo do Papa foi seguido pela pregação apaixonada de Pedro, o Eremita, que incitou entre os camponeses um furioso entusiasmo pela causa santa. Entre 1096 e 1244 foram lançadas uma série de Cruzadas sendo que apenas a primeira conseguiu algum sucesso na demolição do domínio turco sobre territórios cristãos. Mas antes do final do século XIII desapareceram todos os pequenos estados e vilarejos fundados pelos cruzados no Oriente Próximo.

O café era uma bebida consumida intensamente pelos turcos pagãos, que assim se tornavam mais despertos e ativos para as lutas.E por isto era evitada com veêmencia pelos cristãos, mesmo sendo conhecida o início do segundo milênio. Apenas no final do século XVI é que seu consumo regular foi permitido entre os cristãos, depois que o Papa Clemente VIII ( 1592-1605) provou e gostou da bebida, que lhe permitia ficar acordado até mais tarde para se dedicar as suas orações a Deus. O Papa aconselhou os cristãos a fazerem o mesmo e o consumo de café começou a aumentar de forma vertiginosa no mundo ocidental. Introduzido no Novo Mundo pelas Companhia das Índias Orientais, o café passou a se tornar um dos principais produtos agrícolas de todos os países. Mas como seu cultivo era difícil na Inglaterra e França, pelo clima frio, este se desenvolveu mais nos países tropicais.

O Preconceito Feminino

“As batalhas contra as mulheres são as únicas que o homem ganha fugindo”

O próximo preconceito contra o consumo de café ocorreu logo após o final do preconceito religioso. Na Inglaterra, um grupo de mulheres publicou , em 1674, um panfleto intitulado “Petição Feminina contra o Café, apresentando à consideração pública as grandes inconveniências ao seu sexo do uso excessivo deste licor sicativo e debilitante”. As mulheres argumentavam que os homens consumiam muito café, e como resultado eram “infecundos e inúteis como os habitantes de onde esta planta inútil nasce e é cultivada”. As mulheres sentiam-se realmente infelizes, pois o panfleto continha ainda: “…O palato de nossos cidadãos tornou-se tão fanático como as suas vontades; como pode ser possível que eles possam renunciar do antigo e bom costume de beber cerveja para perseguir este líquido pervertido, jogar fora o tempo disponível , mudar suas lojas, dispender seu dinheiro, tudo para beber um pouco desta água suja, nauseante, desagradável, amarga e escura …”.

Os homens costumavam dispender muitas horas nas inúmeras cafeterias elaborando o texto da “Resposta dos Homens a Petição das Mulheres contra o café”, que dizia: “… Porque deve a inocente bebida oriunda do café ser objeto de vosso mau humor? Este licor inócuo e curativo, que a providência divina mandou para nós … não é esta bebida que diminui nossa atuação no esporte de Vênus, e nós esperamos que vocês aceitem esta exceção…”. E o problema foi resolvido e o preconceito logo desapareceu quando as mulheres passaram a fazer café em casa a partir da manhã, para estimular os maridos a ficarem em casa ou voltarem para casa para tomar um bom café antes de deitar. Assim ficavam excitados e felizes. E suas esposas também.

Na atualidade é uma prática perfeitamente normal e comum uma reunião em grupo, consumindo um bom cafezinho,sobre o fato de que não havia fundamento na ideia de que o café diminuía a excitabilidade sexual, causava a esterilidade ou reduzia a lascívia. Certamente os árabes também não acreditavam nestas afirmações, pois o consumo do café disseminou-se por todo o mundo islâmico e depois por todo o mundo cristão.

O Preconceito Político-econômico

“Para evitar a crítica, não faça nada, não diga nada, não pense nada, seja nada”.

Com o final dos preconceitos religioso e político, surgiu um novo preconceito: o politico-econômico. Já em Mecca, como os islâmicos costumavam ficar muitas horas nas cafeterias, estas passaram a ser proibidas e o suprimento de café, a ser destruído. Entretanto a sabedoria de alguns governantes prevaleceu e a proibição foi retirada. Em meados do século XVII situações semelhantes coorreram, mas em locais diferentes. Cafeterias surgiram na Inglaterra (1650) e na França (1671), criando novos costumes. Nas cafeterias, as pessoas reuniam-se para descansar, relaxar, aprender as novidades, para vender barganhas e até mesmo para conspirar. Este última prática levou o Rei Carlos II da Inglaterra a proibi-las, temeroso de algum complô contra seu reinado.O Rei teve menos sucesso que as mulheres. Onze dias após sua proibição, as cafeterias foram reabertas e proliferaram de forma avassaladora. Algumas ficaram conhecidas como “universidades baratas” no início do Século XVIII. Por alguns trocados para a compra de um cafezinho para um orador, era possível ouvir e aprender com grandes figuras literárias e políticas da época. A grande companhia de seguros Lloyd’s de Londres, iniciou suas atividades em torno de 1700 na cafeteria de Edward’s Lloyds.

Do outro lado do canal, o vinho de boa qualidade e barato na França fez com que o consumo de café fosse recebido com menor entusiasmo. Mas o consumo foi crescendo lentamente e a popularidade na nova bebida atuou decisivamente no surgimento do CanCan. Os proprietários dos cabarés franceses, temendo a diminuição do número de clientes que procuravam cada vez mais as cafeterias, conseguiram convencer as bailarinas a dançarem sem as anáguas, para atraírem mais a clientela masculina.Apesar de todos os recursos empregados, as cafeterias sobreviveram e o consumo de café aumentou. Em 1974 o consumo anual de café na França foi em torno de 6 Kg por pessoa. O uso de café disseminou-se ainda mais com a conquista das Américas. Mas, devido as condições climáticas, o cultivo do café tornou-se viável apenas em países pobres e subdesenvolvidos. E isto criou um novo preconceito: o político-econômico. Os países ricos queriam um produto bom e barato dos países inferiores. E a melhor maneira de conseguir algo é pechinchar. E criticar o objeto de compra para diminuir seu valor no mercado.

Em 1987, a importação de café pelos Estados Unidos foi da ordem de 3,13 bilhões de dólares, com uma diminuição em torno de quase 15%, comparando com a importação de 3,9 bilhões de dólares em 1980. O consumo per capita diminuiu também de 3,8 kg em 1983 para 3,6 Kg em 1985 e para menos de 3,0 Kg a partir da década de 90. No inicio do III Milênio parece estar havendo um reconhecimento do valor, importância e benefícios do consumo de café. Mas ao mesmo tempo o consumo de drogas vem aumentando de forma acelerada. A agricultura do cafe e seu consumo podem exercer uma papel importante no controle do plantio ao consumo de drogas em todo o mundo, além da ser o mais saudável dos hábitos para o ser humano.

Referências:
1. LIMA, D. R. CAFEÍNA E SAÚDE. Rio de Janeiro: Record, 1989. 130 p.
 2. LIMA, D. R. CUIDADO!!! O POPULAR CAFÉ E A PODEROSA MULHER... PODEM FAZER BEM À SAÚDE. Petrópolis: Medikka Ed. Científica, 2001. 111 p.
 3. LIMA, D. R. HISTÓRIA DA MEDICINA. Rio de Janeiro: Medsi Ed. Científica, 2003. 324 p.
 4. LIMA, D. R. MANUAL DE FARMACOLOGIA CLÍNICA, TERAPÊUTICA E TOXICOLOGIA. Rio de Janeiro: Medsi Ed. Científica, 2003. 3 Volumes, 3.456 p.