Nossa Senhora da Boa Morte


Nossa Senhora da Boa Morte

 

Até então eu só conhecia a santa graças aos poemas de Manuel Bandeira, e jamais a imaginei viva. Bem, entendam que quando eu digo viva, me refiro ao fato de que acreditava ser a santa, apenas fruto da imaginação do invejável poeta pernambucano.

Mas, para minha surpresa e admiração, dou de cara com a igreja de “Nossa Senhora da Boa Morte” em plena São Paulo, na chegada do Glicério para ser mais exato. Não poderia ser melhor localizada.

De início, quando cheguei ao bairro, sua identificação era difícil, encontrava-se a igreja cercada por tapumes de madeira com grande quantidade de placas de patrocínios; ela (a igreja) passava por reformas, e lá constava: Restauração da Igreja de Nossa senhora da Boa Morte.

Li novamente para que não restassem dúvidas, e confirmei, era isso mesmo, não é que a santa existia!

 

Primeiro devo explicar que não tem nada haver com aparições da Santa, peregrinações, romarias nem nada… o que eu disse é que descobri que a dita santa, cantada por Bandeira, de fato existe na iconografia da Igreja Católica, e mais, tem uma igreja (pelo menos uma) dedicada à seu culto. Explicação dada, voltemos ao inusitado nome ou título da Santa: “Nossa Senhora da Boa Morte’.

Não sei porque, mas de cara já gostei do nome, independente de meu lado anticlerical assumido e radical, que isso fique claro.

Nos dias seguintes passei a olhar com outros olhos para aquela antiga igreja quase que totalmente recuperada, tentando entender que tipo de morte poderia ser ruim, pois para mim ela (a morte) sempre fora vista como boa.

É incrível como o assunto que nos acompanha desde que nascemos, torna-se tão incômodo ao passo que vamos crescendo, isso para a maioria dos viventes. Talvez porque vamos acumulando coisas ao longo dos anos, e desejando cada vez mais, então nos pega de surpresa a notícia da morte de alguém. Cai nos a “ficha”, poderia ter sido eu.

Descabelamos, rezamos, pedimos, imploramos por mais dias, mais vida, mais mais e quase sempre vivemos pior, sem contar que não conseguimos ainda cercar a dita cuja, a ceifadora sinistra, a danada, a irremediável, ela, a dona morte.

Certificados de que não há escapatória, surge então o apego final, êh mundo cão! Tem gente que acha que pode tirar vantagem de tudo, e então só resta apelar, já que a morte vem, que seja ela boa.

Até entendo essas pessoas, e talvez por isso passei a perguntar pra mim mesmo claro, será que existirá por ventura, a Nossa Senhora da Má Morte? Sinceramente tem perguntas que eu faço que sequer espero uma resposta. Boa ou má, a morte tem dado as caras no Glicério, nem que seja nos braços de uma Santa, talvez até para amenizar um pouco a rigidez do tema e do lugar.

No fundo eu gostaria que ela, a Santa, fosse, e bem que poderia ser, a Nossa Senhora da Boa Miséria, da Ótima Penúria, da Tranquila Pobreza, da Plena Miserabilidade sei lá… é que ao redor da igreja amontoam-se uma dezena de mendigos e moradores de rua, esfomeados e com frio, dormindo sob cobertores minúsculos, imundos, e em caixas de papelão oleosas.

Todos os dias cruzo com essa realidade, e imagino se essas pessoas não estão ali justamente em busca de uma boa morte, “o descanso”, como dizem.

Poderia uma pessoa vivendo em miséria total apelar por uma boa morte? oras, por que não? na verdade eles estão ali como zumbis, mortos social, moral e civilmente. Mortos de espíritos talvez  e de sonhos com certeza.

Consideram-se mortos, são vistos como mortos, se é que são vistos, e ali deitam  seus corpos doridos diariamente avessos ao calendário festivo das centrais sindicais e dos dias santos. Uma boa morte seria o auge, o tudo para quem nunca teve nada.

Comem restos dos restos que nos servem em restaurantes e bares, e vestem-se com o que resta do resto de nossas roupas. Sorriem com o que restou de dentes, caminham com os restos dos ossos e respiram porque são teimosos.

Valei-me “Nossa Senhora da Boa Morte! Não por mim e nem por minha descrença, mas pela indiferença sofrida por essa gente; que reserve a essas pessoas no mínimo uma boa morte boa.