Maio


Maio

 Para Dona Neguinha.

e todas as mães e mulheres que acreditam que podem fazer a diferença.

            Chegamos em maio, dizem que é um mês feminino… fortuitamente o ano se aproxima do meio e eu permaneço em meio à dúvidas atrozes, e quem não? Se bem que maio é o mês da promessa, que é feminina, como mãe e noiva, trilogia que se complementa ambiguamente, e não mês da dúvida, que pra variar, também é feminina.

             Em pensar que até pouco tempo atrás mãe era uma certeza, hoje até mãe é dúvida, não duvide! A noiva quase sempre quer ser mãe, sem contar o número de mães querendo ao menos noivar… Toma que o filho é teu! Virou moda esse refrão… mesmo em maio tem mãe que dispensa seus filhos como se estivesse livrando-se de um estorvo… todos estamos sujeitos à loucura.

             Obviamente corro o risco de ser chamado de machista, até mesmo por culpa da formação que tive, mas é que sempre acreditei em super-mães, em mulheres fortes, consumidas por suas crias (involuntárias as vezes), mas que resistem docemente, sem abrirem mão de serem chamadas de mães, sabe-se lá o que é isso?! No mundo onde as babás eletrônicas se sobressaem, falar em mãe é ser reacionário ou no mínimo retrógrado.

             É que para uma mãe, não existe esta de perder noite cuidando de filhos, ela ganha por se dedicar como ser humano a outro ser completamente dependente, e isso, milhões de anos antes de se ouvir falar em politicamente correto… num mundo onde tem tanta gente querendo “ajudar”, as mães já fazem isso tão naturalmente, afinal, dedicar-se não é sinônimo de submissão. Sei lá, parece que as mães são humanas demais!

             Por isso sempre imagino a mulher como uma promessa, a dádiva de tornar-se mãe, ou noiva, ou doida, qualquer hora dessas (só elas têm esse poder) … e quando houver tempo para ser, desde que não reste dúvida e vontade própria… e vontade é feminino de “eu quero”, o que por sua vez suprime qualquer barreira. Dizem por aí que quando uma mulher quer, ela faz acontecer… eu acredito.

             Mas se quer falar em submissão, então obriguem-nas a votarem, a obedecerem cegamente, a ficarem presas em casa, a ouvirem caladas as babaquices e promessas “consumo-machi-preconceituosas” de que o mundo mudou e de que tem direitos iguais… Uma mulher, uma mãe… está muito além de um presente em um dia específico do ano, ou de uma bandeira político-ideológica, e muito mais além de um voto ou um rótulo.

             E tem mais, a mulher não precisa ser mãe para ser reconhecida, ela precisa apenas ser …Não existe anormalidade na condição de querer ser livre, e liberdade é feminina também, assim como luta, garra, força e vontade. Enquanto os homens ocupam-se em criar, viver e atuar em coisas de homens, as mulheres mostram-se superiores ao criar, viver e atuar em tudo que abranja o ser humano, sem se preocupar com gêneros… cara, eu adoro isso nelas!

            Penso em todas as mulheres e mães, e por um minuto passo a enxergar possibilidade de um mundo melhor e mais justo, sim, eu digo mãe, porque mãe é um ser tão complexo e maravilhoso que poderia muito bem ser a única religião existente.

             É maio… solavanca em mim o desejo de um mundo onde não haja disputa ou superioridade entre homens e mulheres, até porque, não imagino a vida sem uma dessas peças.

             Mas daí, até ligar maio à dúvida não tem nenhum sentido, já que maio é masculino, mas é que gosto da promessa de que a noiva possa vir a ser mãe, e não sei porque ‘cargas d’água” essa ideia de perpetuação me fascina à beça.