Coisas de Crianças


Coisas de criança

Para Vilma M. Silva

 

Já me acostumei com o fato de ter perdido o meu nome… ah, que besteira, é só um nome, e nome as vezes é complicado mesmo… vai-se o nome fica a identidade. Tornei-me tia, mas não uma tia qualquer, afinal, eu sou “A Tia”, uma mistura de tudo quanto é futuro que possa existir para uma criança.

Algumas vezes já quase acreditei que seria apenas uma tia, mas minha função me faz perceber que não sou apenas uma tia como pensam os desavisados. Isso mesmo, eu sou um mundo, é isso que eu sou! Claro que nem todos me vêm assim, a maioria me olha e enxerga uma funcionária pública, mas há muito aprendi que para melhor enxergarmos o mundo é necessário que tomemos um pouco de distância dele.

Na maioria das vezes tias, outras tantas vezes somos mães, irmãs, médicas, amigas, psicólogas, parceiras… e tantas outras vezes, somos loucas, palhaças, princesas, baratas, acrobatas, caipiras, índias, artistas, dragões e principalmente colo…  É, nós também nos surpreendemos algumas vezes sendo, acredite: colo.

Coisas de criança, dirão. Coisas de criança é o que somos, o que melhor nos define… coisas de criança.

E como coisas de criança é que aprendemos a ser como eles querem, a entender o que eles querem, a reconhecer suas diferenças, suas habilidades, dificuldades, seus sorrisos e suas birras. É assim que nos enxergamos todos os dias, como parte de suas vidas, suas vidas de ainda crianças, porque nós somos coisas de crianças.

Reconhecemos em cada uma delas a genialidade e a peraltice; o dengo; a manha; a esperteza; e até o que não queremos: a tristeza. Nós, as tias, estamos cientes de que somos as responsáveis pelos seus filhos durante o período em que vocês trabalham, e neste período fazemos o possível para que eles não sintam tanto suas faltas e para que eles continuem sempre se desenvolvendo.

Diariamente dispensamos todos os esforços e até sacrifícios para que seus filhos (nossas crianças), aproveitem cada momento de suas infâncias, auxiliando-os em seus primeiros passos no convívio social e no desenvolvimento das habilidades básicas, porque não é no mundo que apostamos, é nas crianças que depositamos nossa confiança de um futuro melhor.

Juntas, nós as tias formamos um grande acolchoado de técnicas, conhecimentos e habilidades que protegem e amparam seus filhos, mas que de nada valeriam se nossas ações não fossem pautadas no respeito e no amor. Não só cuidamos, ensinamos; não só amamos, respeitamos.

Nosso papel nunca é o de substituir, nossa função é sempre somar, acrescentar, possibilitar, incentivar, despertar nas crianças o que elas têm de melhor e é por isso que diariamente nos transformamos em coisas… coisas de criança.

Tias não são atrizes… atrizes representam, tias não. Nós vivenciamos, experimentamos a alegria de seus sorrisos ou a dor de suas tristezas. Usufruímos do calor de braços pequeninos que tentam circundar nossos pescoços distribuindo beijos… coisas de criança.

Reconhecemos detalhes nas crianças que algumas vezes passam despercebidos pelos pais; temos o poder de curar aquele minúsculo arranhão com um pequeno sopro ou um beijo no dedinho que prendeu no armário… somos assim, algo sem definição exata, até porque somos tias, e tias são coisas de criança.

Administrar diferenças em diferentes situações, criar situações que respeitem diferenças, respeitar diferenças e situações, nossa! Percebem com é complicado a vida de tia? Estamos tão habituadas aos gritos, gargalhadas e correrias que quando nos deparamos com o silêncio sentimos que tem algo errado. Somos coisas de criança e é tão bom saber que estaremos presentes em suas memórias de infância, porque é lá que reside o amor gratuito, que subsiste em troca de amor apenas.

Após encerrado seu ciclo, a criança retorna definitivamente para seus pais, e nós, as tias, quedamos mais uma vez órfãs daqueles pelos quais depreendemos grande parte de nossos dias, porque somos tias e temos que lidar inclusive com as perdas.

Nós ‘tias’, somos alguma coisa complexa e inexata que trabalha o presente, pensando num futuro que seja infinitamente melhor que o passado, porque nós, tias, somos simplesmente coisas de criança.

 

Danton Medrado