Carranca


CARRANCA

 

Eu observava o centro de São Paulo da janela do hotel, ainda desorientado, sem saber bem o que estava acontecendo. O dinheiro não daria para me manter hospedado por muito tempo. De cima, observava sob meus pés uma imensidão de carros, pessoas e mendigos… Todos, (exceto os mendigos) em ritmo acelerado, perseguidos pela cobrança que lhes faz o mundo.
A visão daquele vai e vem frenético, comparado a formigueiro humano, descobria-se diante de janela do quinto andar de um hotel de terceira categoria, na Praça da Sé. A cidade atropelava os viventes em sua ânsia de crescente progresso, progresso esse que não alcança jamais as pessoas jogadas nas calçadas, desiludidas de tudo, tendo como deus e salvação apenas uma droga chamada “crack”.
Por enquanto, eu continuava no hotel, desprovido das pessoas que amo, lembrando-me delas enquanto as amo, já que o mundo que corria lá embaixo deixava bem claro que até amor tem limite, caso contrário, não haveria tantas pessoas nas ruas. De onde vim, não existiam pessoas jogadas nas calçadas, famintas, drogadas e andrajosas. Havia pobreza sim, e fome, mas o que aqui eu via era algo muito superior à miséria.
Percebo que alguns ainda tentam esmolar, e apesar do insuportável cheiro, tornaram-se invisíveis para os apressados transeuntes que cruzam a praça em busca de seus sonhos, mesmo que seja pisoteando outros sonhos, e outras pessoas. Quando interpelados, temem ser tocados, lançam uma moeda e se afastam, deixando para trás a sua maldita colaboração, dada sobre pressão.
Recostada à igreja uma adolescente amamenta seu filho, enquanto enterra-se num cachimbo de “crack” que leva à boca já tomada de feridas. Alimenta ela sonhos, como eu? Teve vida? Na TV a violência é a mesma, há opção por programas religiosos, noticiários, novelas ou filmes pornôs, todos eles preocupados apenas em vender suas mentiras, enquanto se estapeiam por audiência, dinheiro e otários.
Os dias seguem iguais. Passei por cinco entrevistas de emprego, mas, não tinha um endereço fixo, telefone de contato, qualificação etc. Sem dinheiro, tive que deixar o hotel, e a praça me recebeu num de seus cantos. Logo eu estava mendigando.

Arrastavam-se os dias como se tentassem me ferir com suas horas pesadas. No seio da cidade, e sem ninguém, minha vida se resumia à busca por alimentos e oportunidades, enquanto ainda me considerava gente. Quanto faltava para que eu também me tornasse invisível?
Um mês na rua e eu já me sentia um lixo. Não demoraria muito para que o “crack” e o crime me alcançassem, ali, na cidade dos meus sonhos. No sexto mês eu já não me conhecia. Morreram os sonhos. Perdi o nome, documentos e a dignidade. Deixei de existir.

Por fim, devido à minha constante tristeza, e a extrema falta de bom humor, ganhei o apelido de “Carranca”, o nome pelo qual atendo hoje.