Anotações de fim de ano


ANOTAÇÕES DE FIM DE ANO

Refugio-me na solidão do meu mundo
Já que tudo é absurdo
Ao menos meu erro é meu
Ou serei eu o erro?
Que diferença faz se não noto diferença
Entre homem-santo e homem-bomba?
Há uma imposição cristã ignorante
Um massacre religioso, odioso e dominante
Como se já não houvesse terror e medo.
Mas nem posso falar, retrucar
O inferno me foi reservado
Bilhete marcado, premiado
Passagem de ida, consegui
Sinto-me livre dos pesadelos
Dos elos que me prendiam à corrente humana
Sou tosco, animal, um reles ser.
De fato, pensar é insalubre
Eu sou um bosta metido a pensante
Periférico e nostálgico
Nordestino no destino
Extremamente incruento
Sertão tão cinzento
Que transparece e evidencia
Minha pobreza.
Não há ciência ou clemência
Não sigo a ordem natural das coisas
Eu que sou o/a coisa
Recuso-me a curvar a espinha para um deus.
Já passei pelo crivo dos crentes
Cáusticos, insanos e moralistas
Hoje me declaro amorfo
Mas ainda vivo.