A Loira na Roda de Narguilé


A Loira na Roda de Narguilé

 

Terça-feira amorfa essa… Só de imaginar que no domingo pude ver surgir da fumaça do narguilé o encanto gratuito de uma mulher que podia jurar ser uma divindade, uma beleza desumana, melhor dizendo, não humana.

Foi um vislumbre quente num atípico domingo de constante garoa e frio, um alumbramento inesperado que confiscou meu olhar durante quase uma hora. Meus pensamentos eram absorvidos pela fumaça do narguilé e pela consternação platônica deste poeta susceptível a beleza feminina.

A loira na roda de narguilé era uma profusão de beleza à qual até o frio se rendia, então, não me censurem pela forma como a ela me refiro.  E quando resolveu andar, o tempo parou por um instante sob a regência de passos milimetricamente espaçados, e a harmonia de pés, ancas e cabelos em movimentos graciosos e naturais, era como se consumasse um gozo esplêndido… Notei que todos os homens ali presentes estavam extasiados.

E ao passar por mim, eu pude ver em seus olhos a verve poética que fere o coração dos que tentam profanar a beleza de uma deusa. Pude sentir em meu corpo um latejamento impar, um batimento arredio do coração, até a respiração mudou-se, e a voz se fez balbuciamento mudo.

Sorvi a fumaça do narguilé e soltei levemente, como se provasse do hálito feminino não angelical, e sai do transe. Ninguém ousou pronunciar uma palavra sequer, e nem era preciso… Ela passou.

Era um domingo para ser lembrado… A loira na roda de narguilé, era um anjo que por engano descansou sua beleza na paixão dos mortais que ali se encontravam.